'Tenta te orientar pelo calendário das flores, esquece, por um momento os números, a semana, o dia do teu nascimento. Se conseguires ser leve, aproveita, enche tuas malas de sonho e toma carona no vento."
Fernando Campanella
#27
"A doçura de não ter família nem companhia, esse suave gosto como o do exílio, em que sentimos o orgulho do desterro esbater-nos em volúpia incerta a vaga inquietação de estar longe — tudo isto eu gozo a meu modo, indiferentemente. Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente, e mesmo o sonho deve ser olhado alto, com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir. Dar demasiada importância ao sonho seria dar demasiada importância, afinal, a uma coisa que se separou de nós próprios, que se ergueu, conforme pôde, em realidade, e que, por isso, perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.
As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.
O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu próprio criei. Que pena! Tenho saudades deles, porque, como os outros, passam..."
Fernando Pessoa in Livro do Desassossego
#26
"E no final das brincadeiras o melhor é a certeza de que a gente brincou. Pelo prazer de estar vivo, pela honra de desfrutar de cheiros, tatos, barulhos e afetos. Que a gente ande por aí orgulhosos dos nossos privilégios e alegrias. Conta pra mim o que vê e eu andarei por nós; olha pra mim, olha por mim e eu te levo. O mundo todo é assim. Que seja assim! Que quem não canta, dance a voz do outro. Quem não toca, que dance pousado nos acordes de quem toca. Porque perfeito só tudo junto. Só uma das mãos não faz o aplauso, só uma boca jamais fará o beijo. Todos juntos, sim, podem formar a imensa risada, que quando for realmente enorme, Deus vai ouvir e nunca mais vai se sentir sozinho."
Oswaldo Montenegro in Noturno - Texto final de Cadeirantes @ Rio de Janeiro, 2004
#25
"Vampiros não existem, mas sim, existem de outra maneira. Alguém suga coisas em você e em mim. A morte é igual, falsa e verdadeira. Mãe do início, avó-do-fim. Que seja a morte o fim da esperança. A morte é o beijo que ficou sem graça; é a velha que já não dança; é quem não gosta de você de graça; é o ciúme que devora e cansa; é a paixão que te incendeia e passa. A morte é a família que te odeia; é a inveja de quem você adora, como um sangue que sabota a veia; é a tua espera quando alguém demora; é o amigo lá da tua aldeia, que esqueceu aonde você mora. Que seja a morte, a morte de quem você quer bem; é o vício de quem espera a sorte, pra quem a sorte nunca vem; é a morte de quem vem do Norte, e passa a vida esperando o trem; é o pai que não diz que te ama; para alguns, Castelo de Vestal; pra mim, é quando alguém me engana; para alguns, é só ponto final. A morte é o quadro-negro com saudade da mão com giz. Para alguns, é dor; para outros, sossego. A platéia vazia é a morte da atriz. Por fim, é um brinde a viver sem medo.
Que a vida compense, e que seja feliz."
Que a vida compense, e que seja feliz."
Oswaldo Montenegro (♥) in Que a vida compense e seja feliz
#24
— Doutor, meu irmão é maluco. Ele pensa que é uma galinha.
— Então, por que você não o interna?
— Bem, eu o internaria, mas acontece que preciso dos ovos.
Assim é como me sinto sobre relacionamentos. Eles são completamente irracionais, malucos, absurdos, mas continuamos. Insistimos porque a maioria de nós precisa dos ovos.
— Então, por que você não o interna?
— Bem, eu o internaria, mas acontece que preciso dos ovos.
Assim é como me sinto sobre relacionamentos. Eles são completamente irracionais, malucos, absurdos, mas continuamos. Insistimos porque a maioria de nós precisa dos ovos.
Woody Allen in Annie Hall, 1977
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