#23

"Há momentos em que temos plena certeza de que alguma coisa – um encontro, um acontecimento, uma notícia – está prestes a acontecer. E que, a partir daquele momento, tudo se transformará. É o tempo da espera. Às vezes, quase instantâneo, outras vezes, longo e sutil. A espera é um estado obrigatório que se repete no cotidiano e na vida. Antecede euforia e celebração, prazer e surpresa, tristeza e felicidade. A espera não pode ser evitada, e por isso precisa ser aproveitada. A espera tem pouco de renuncia: ao contrário, ela tem força criada pelas expectativas, a incerteza que muitas vezes nos leva adiante, obrigando-nos à fazer opções. Na espera a única certeza é a de mudanças: da sala vazia que logo estará completa, do silêncio que será rasgado por sons, das certezas que se tornarão lembranças, das partidas e chegadas que nos farão sorrir e chorar. A espera aparentemente passiva é um momento de plena atividade – silenciosa, interna, cheia de idas e vindas, hesitação e certezas. Enquanto se espera o futuro é viável. A espera é o anúncio do próximo passo, de um ponto a seguir."


Cláudia Jaguaribe in crônica A certeza da espera